Agricultura e alimentação sob a perspectiva antroposófica

Texto: Fernanda Sansão Hallack
Psicóloga, especializada em Recursos Humanos, Psicologia do Trabalho e Teoria Sistêmica. Mãe de dois filhos do Jardim-Escola Michaelis.

O que é esta preciosa coisa que está contida nos alimentos e nos preserva da morte? 

Erwin Schroedinger (1887-1961 – Prêmio Nobel de Física (1933) 

Para a nutrição antroposófica você não é o que você come. Convertemos a vitalidade do alimento em nossa vitalidade, mas para isso mobilizamos forças consideráveis para quebrar e transformar os alimentos em algo próprio de modo a não rejeitarmos o que é ingerido. Por isso, a alimentação saudável, sob a perspectiva antroposófica, vai além do parâmetro quantitativo de baixa densidade calórica e alto valor nutricional, norteando-se pela escolha dos alimentos que possuem maior potencial de gerar vida: naturais, frescos, integrais, livres de quaisquer contaminantes e processamentos. 

A dieta ideal seria a lactovegetariana (ovos, frutas, vegetais e cereais) integral, orgânica e de origem biodinâmica, ou seja, proveniente de um solo balanceado. Esse preserva integralmente os teores nutricionais equilibrados, os fitoquímicos e os minerais dos alimentos, estimulando o organismo em diferentes níveis e se traduzindo em bem-estar, disposição e vitalidade. Por outro lado, devem ser também contempladas as escolhas, necessidades e possibilidades individuais, para além das necessidades nutricionais. A carne entra neste quesito, sendo uma opção se não for consumida em excesso. É uma dieta abrangente, simples e pouco restritiva, desde que sejam observados de onde vêm os alimentos e evitados os alimentos industrializados e refinados.

Essa vitalidade dos alimentos vai encontrar similitudes e atuar nos seus correspondentes no ser humano, que tem um corpo físico mineral, vitalizado como os vegetais – nos quais atuam forças regenerativas que os fazem crescer contra a ação da gravidade e em direção ao Sol - e animado como os animais, que são portadores de instintos, impulsos, sensações e sentimentos. Por isso, considera-se que os alimentos de origem vegetal ou animal nos estimulam de formas diferentes: os primeiros estimulam a nossa vitalidade, e os segundos, os nossos instintos. As proteínas vegetais e animais (transformadas em estrutura corporal) e os carboidratos (transformados em glicose) das folhas, frutos e raízes são também diferentes entre si e nas reações que provocam em nosso corpo. 

Nosso sistema neurossensorial, situado na cabeça, onde está a maior parte dos nossos órgãos dos sentidos (que absorvem a luz, os sons, os alimentos...), relaciona-se, de forma invertida, com as raízes da planta, que absorvem a água e os nutrientes. As raízes atuam, portanto, no nosso sistema nervoso, como a cenoura, a beterraba, o rabanete, o ginseng e o gengibre. Já nosso sistema metabólico-locomotor refere-se aos membros, aos órgãos digestivos e reprodutores, nos quais predominam o metabolismo, o calor e o movimento. Está relacionado às flores e aos frutos (como a abóbora, a abobrinha, o pepino, o chuchu e o brócolis), pois é no polo floral que se encontram o órgão reprodutor e o metabolismo dos açúcares e proteínas das plantas. Por fim, nosso sistema rítmico corresponde ao centro de nosso corpo, onde estão o pulmão e o coração, centro do sistema circulatório. Neste, ocorrem os movimentos de inspiração/expiração, sístole/diástole, expansão/contração, assim como há o movimento da seiva no caule e as trocas gasosas nas folhas. Couve, rúcula, agrião, acelga e espinafre, por exemplo, atuam nesta região. 

Uma alimentação equilibrada entre esses três elementos (raiz, caules/folhas e frutos) vai também equilibrar ritmicamente os três elementos corpóreos humanos (sistema nervoso/sistema rítmico/metabolismo). Todos os processos vivos respeitam e se equilibram através dos ritmos próprios (por exemplo, a respiração, a circulação e a digestão nos seres humanos) e dos ritmos cósmicos (ciclo circadiano, solar, lunar, planetários, estelares e das estações) que influenciam, por exemplo, as marés, o ciclo menstrual e o tempo de gestação das mulheres, a sazonalidade e a fertilidade das plantações. Por isso, a Antroposofia desenvolveu, através de seu criador, o filósofo austríaco Rudolf Steiner (1861-1925), uma agricultura própria, a Agricultura Biodinâmica, buscando preservar ao máximo, através do respeito aos ritmos da natureza e da nutrição equilibrada do solo, a força vital dos alimentos. 

Como o ser humano não absorve energia diretamente do Sol, sua vitalidade é obtida da absorção da energia solar e das outras forças cósmicas sutis que estimulam os solos, as plantas e os alimentos. A energia vital subsiste na planta mesmo que ela seja separada de sua raiz, de seu substrato vital. Esta é uma das razões pelas quais os carnívoros alimentam-se majoritariamente de animais herbívoros. Numa escala gradativa, os alimentos crus, frescos, mais próximos de sua condição natural, capazes de brotar ou gerar vida (como os grãos integrais e os ovos) retém mais força vital do que os submetidos ao congelamento e à combustão (sem mencionar aqui os submetidos a processamentos industriais). 

O solo biodinâmico é considerado um organismo vivo, onde todos os reinos da natureza interagem sob uma ótica ambiental de preservação dos movimentos naturais das espécies e de minimização do gasto energético e de desgaste do solo. Os compostos biodinâmicos são preparados com esterco, lixo orgânico, plantas medicinais e com substâncias minerais (com destaque para a sílica, que ajuda a reter os nutrientes), vegetais e animais em alta diluição para equilibrar a terra e tratá-la após ser desgastada a cada colheita. 

A nutrição, a medicina e a salutogênese: 

O ser humano tem um quarto elemento constitutivo que o diferencia do determinismo biológico dos outros reinos: a consciência, a individualidade, o discernimento e o livre arbítrio. Esses o dotam de faculdades sensoriais, emocionais e intelectuais próprias de sua espécie. Este é o “Eu” através do qual cada um se nomeia, intransferivelmente. 

Essa é a base da Salutogênese, uma abordagem integral antroposófica de compreensão e promoção da saúde, de como as pessoas se tornam e permanecem saudáveis em nível orgânico, psíquico e social, que contrasta com o modelo da patogênese na qual a questão central é a doença. Estudos mostram que animais alimentados sob a perspectiva antroposófica biodinâmica adoecem com menos frequência, recuperam-se mais rápido, têm melhores taxa de fertilidade e sobrevida ao nascer. O médico antropológico pode aconselhar seu paciente sobre o intervalo entre as ingestões os tipos de alimentos mais adequados aos ritmos metabólicos. Este profissional norteia-se pelos quatro temperamentos abordados pela Antroposofia (colérico, melancólico, fleumático e sanguíneo) para sugerir os alimentos mais propícios para equilibrar as fragilidades de determinados órgãos e as suscetibilidades a doenças. Os sabores também devem ser considerados dependendo do temperamento dominante, constituindo uma dimensão de análise bastante própria.